Quem é o Senhor dos Passos
O Senhor dos Passos é uma invocação de Jesus num momento específico: o trajeto entre a condenação à morte e o Calvário, com a cruz nos ombros.
Não é o Cristo ressuscitado nem o Cristo do presépio. É o Cristo no meio do caminho mais difícil, e é assim que as imagens o mostram, quase sempre no instante de uma queda.
É uma das devoções mais antigas do Brasil e a que move algumas das maiores procissões da Quaresma.
A oração ao Senhor dos Passos
O texto rezado nesta devoção começa assim:
Meu Jesus, Senhor dos Passos, açoitado, coroado de espinhos, escarnecido e cuspido, condenado à morte, carregado com a cruz, caído por terra, pregado no madeiro, vós sois a vítima das iniquidades.
Repare que a oração é uma lista, e a lista é cronológica. Ela acompanha, verbo por verbo, tudo o que aconteceu naquele percurso, na ordem em que aconteceu.
Não há pedido nas primeiras linhas. Há apenas o reconhecimento do que foi feito com ele, item por item, sem pressa. Quem reza está caminhando junto.
O que quer dizer passos
A palavra parece simples e guarda a chave da devoção.
Passos, aqui, são as etapas do caminho de Jesus até o Calvário: cada parada, cada queda, cada encontro.
A ideia vem da Idade Média. Os cruzados que iam a Jerusalém visitavam os lugares por onde Jesus tinha andado, um a um, e ao voltar para a Europa quiseram refazer aquele mesmo caminho na própria terra, marcando os pontos e parando em cada um.
Ou seja: quem reza ao Senhor dos Passos está fazendo, de outro jeito, o que aqueles peregrinos faziam a pé em Jerusalém. Está percorrendo o trajeto.
As duas procissões
Esta é uma das poucas devoções do Brasil que se celebra em duas procissões distintas, e cada uma tem função própria.
A primeira é a Procissão do Depósito, que costuma acontecer no sábado que antecede o Domingo de Ramos. Nela, a imagem do Senhor dos Passos, coberta, é levada de um templo até outro, onde ficará depositada.
A segunda é a Procissão do Encontro. Nela, a imagem sai e é levada ao encontro da imagem de sua Mãe, e as duas se encontram em algum ponto do trajeto, diante do povo.
Esse encontro é o momento mais forte das duas noites, e é a razão de tanta gente ir. Não é uma cena de vitória: é uma mãe encontrando o filho no pior dia dele.
A imagem que não deixou o barco seguir
A história da devoção em Florianópolis tem um começo que o povo repete há mais de duzentos e cinquenta anos.
Em 1764, uma imagem do Senhor dos Passos, vinda da Bahia, viajava de barco com destino ao extremo sul. O barco parou na vila que deu origem a Florianópolis e, segundo o relato, não conseguia seguir viagem: tentava e voltava.
O capitão entendeu aquilo como sinal de que a imagem devia ficar ali. E ficou.
A imagem foi esculpida em tamanho natural pelo artista baiano Francisco das Chagas e mostra Jesus na primeira queda a caminho do Calvário.
A irmandade que virou um hospital
E aqui está o desdobramento que quase ninguém conhece.
Em 1765, foi criada uma irmandade para cuidar da imagem recém-chegada e organizar o culto. Na Semana Santa do ano seguinte, ela conduziu a primeira procissão pelas ruas da vila.
Só que a irmandade não parou no culto. Em 1782 começou a atender doentes pobres e abandonados, e dessa obra nasceu o hospital de caridade da cidade, que existe até hoje e atende há mais de dois séculos.
Vale reparar no caminho: um grupo se junta para carregar uma imagem, e acaba fundando um hospital. A devoção não ficou dentro do templo.
Quando se reza ao Senhor dos Passos
Reza-se na Quaresma, e principalmente na semana das procissões, que é quando a devoção acontece de fato.
Reza-se quando se está no meio de alguma coisa difícil e ainda falta caminho, que é exatamente o momento retratado na imagem.
Reza-se acompanhando a Via-Sacra, que é a mesma ideia: percorrer o trajeto parando em cada ponto.
E reza-se por quem carrega peso sozinho, lembrando que na cena original alguém foi obrigado a ajudar a carregar a cruz, e que pedir ajuda não tira nada de ninguém.