O que é a devoção à Sagrada Face
A devoção à Sagrada Face é a contemplação do rosto de Cristo, sobretudo do rosto marcado da Paixão.
Não é devoção a uma imagem específica nem a um objeto. É olhar para aquele rosto e ficar ali.
O que se pede nela é diferente do que se pede na maior parte das devoções: não se pede um favor, oferece-se consolo. O nome disso, na linguagem da Igreja, é reparação.
A devoção como existe hoje se organizou na França do século XIX e foi aprovada pelo Papa Leão XIII em 1885.
A oração à Sagrada Face
O texto rezado é este:
Ó Jesus, cuja Face adorável se inclinou tão misericordiosamente para a salvação do mundo sobre a árvore da Cruz no dia da Paixão, hoje mais uma vez, por piedade, inclinai-Vos para nós, pobres pecadores. Deixai cair sobre nós um olhar de compaixão e recebei-me com um ósculo de paz. Amém.
Repare no verbo que se repete: inclinar.
A oração parte de um gesto concreto, o da cabeça que pende na cruz, e pede que ele se repita agora, na direção de quem reza. É um pedido de olhar, não de solução.
O leigo que rezou trinta anos com uma lâmpada acesa
Aqui está a parte que mais surpreende nesta história, e ela não tem nada de espetacular.
Havia em Tours, na França, um leigo chamado Leão Dupont. Não era padre, não era religioso, não tinha cargo nenhum na estrutura da Igreja.
Ele acendeu uma lâmpada diante de uma imagem pintada do rosto de Cristo e passou a rezar ali.
E ficou nisso por trinta anos.
Trinta anos acendendo a mesma lâmpada, diante da mesma imagem, insistindo para que aquela devoção se espalhasse. Em 1876 conseguiu organizar uma confraria em torno dela.
Ele ficou conhecido como o Apóstolo da Santa Face, e o processo de beatificação dele foi aberto.
Vale medir o tamanho disso. A devoção não se espalhou porque um Papa decretou nem porque uma ordem religiosa a adotou. Ela se espalhou porque um homem comum não desistiu por três décadas, com uma lâmpada acesa e nenhuma autoridade para mandar em ninguém.
A carmelita de Tours
A origem do pedido é anterior a ele, e vem da mesma cidade.
Em 1843, uma carmelita chamada Irmã Maria de São Pedro relatou ter recebido, na oração, o pedido de que se difundisse a devoção à Face de Cristo, em reparação pelos insultos sofridos por ele na Paixão.
Ela morreu poucos anos depois, ainda jovem, e a devoção poderia ter parado ali, dentro do convento.
Foi então que Leão Dupont, na mesma cidade, pegou aquilo e passou a vida cuidando disso.
Uma pessoa recebeu e outra carregou. Sem a segunda, ninguém teria ouvido falar da primeira.
A santa que levava esse nome
Há um detalhe que quase todo mundo desconhece, mesmo quem é devoto.
A santa mais conhecida do mundo moderno carrega este título no próprio nome religioso: Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face.
O costume encurtou o nome, e a segunda metade sumiu. Quase ninguém a chama pela parte final, mas ela está lá, e não é enfeite: aquela santa escreveu sobre a Face de Cristo e compôs oração a ela.
Ou seja, quem reza a essa santa está rezando a alguém que levava no nome a devoção desta página.
O gesto da Verônica
A devoção tem também uma raiz mais antiga, no caminho da cruz.
Uma das estações da Via-Sacra é a de uma mulher que sai do meio da multidão, chega perto de Jesus e enxuga o rosto dele com um pano.
É o gesto mais simples possível, e é inútil no sentido prático: não impede nada, não resolve nada, não muda o desfecho.
E é exatamente isso que a devoção à Sagrada Face propõe. Não se trata de salvar Cristo de coisa nenhuma, e sim de fazer o gesto pequeno de quem se aproxima e limpa um rosto.
Quando se reza à Sagrada Face
Reza-se na Quaresma e na Semana Santa, tempo próprio desta devoção.
Reza-se diante de uma imagem do rosto de Cristo, que é o gesto original dela.
Reza-se em reparação, ou seja, sem pedir nada, oferecendo companhia.
Reza-se por quem foi humilhado publicamente, e por quem carrega no rosto a marca do que passou.
E reza-se quando não há o que pedir, porque esta é uma das poucas devoções em que a oração não tem pedido nenhum: tem olhar.