O que é a devoção a Cristo Crucificado
Rezar a Cristo Crucificado é rezar diante da imagem de Jesus na cruz, olhando para ela.
Não é uma festa do calendário nem uma devoção com data marcada. É um modo de rezar, e é provavelmente o mais antigo hábito visual do catolicismo: parar na frente do crucifixo e ficar ali.
Quase toda casa católica brasileira tem um, e quase ninguém pensa no que ele é.
A oração diante do crucifixo
Esta é a oração tradicional para esse momento:
Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em vossa presença e vos suplico com todo o fervor de minha alma que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito de emenda, enquanto vou considerando com vivo afeto e dor as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos aquilo que o profeta Davi já nos fazia dizer: "Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos".
Era o pior jeito de morrer que Roma tinha
Vale lembrar o que era aquilo.
A crucificação não era a execução comum. Era a pena reservada aos escravos e a crimes considerados graves contra o Estado, e a humilhação fazia parte da pena: a pessoa morria exposta, à vista de quem passava, na beira da estrada.
Cidadãos romanos, em regra, não eram crucificados. Havia formas mais rápidas e menos degradantes de matar alguém, e elas eram reservadas a quem tinha status.
Ou seja: a cruz não era só o instrumento da morte. Era o instrumento da vergonha.
E hoje ela está pendurada na parede da sala
Agora ponha as duas coisas lado a lado.
O objeto mais humilhante do Império Romano virou o símbolo mais reproduzido da história do Ocidente. Está em parede de casa, em corrente no pescoço, em torre de paróquia, em cabeceira de cama de gente doente.
Nenhuma outra civilização fez isso com o próprio instrumento de tortura.
Seria como uma religião adotar a forca ou a cadeira elétrica como sinal de esperança e pendurar uma na sala.
É esse desconforto que a devoção guarda. O crucifixo não é enfeite: é a lembrança de que o pior lugar do mundo foi ocupado de propósito.
A oração termina com um texto anterior ao fato
Repare no fim do texto rezado.
Ele termina citando o profeta Davi: "Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos".
Essa frase está no Salmo 22, escrito muitos séculos antes de a crucificação existir como pena romana.
E é isso que a oração faz você segurar: você está de joelhos diante de uma imagem, e as palavras que a oração põe na sua boca são de um texto muito mais velho que a cena.
Não é a oração comentando o que aconteceu. É um texto antigo descrevendo o que a pessoa está olhando.
As cinco chagas
A oração pede para considerar "as vossas cinco chagas".
São as marcas que ficaram: as duas das mãos, as duas dos pés e a do lado.
Cinco é um número pequeno, e é justamente por isso que ele funciona. A oração não manda meditar sobre o sofrimento em geral, que é abstrato e cansa. Manda olhar para cinco pontos concretos da imagem que está na frente da pessoa.
É instrução de como olhar, e não convite a sentir.
Quando se reza a Cristo Crucificado
Reza-se diante do crucifixo, em casa ou na paróquia, sem hora marcada.
Reza-se nas sextas-feiras, dia em que a Igreja Católica faz memória da morte de Jesus, e especialmente nas sextas da Quaresma.
Reza-se diante da cama de alguém doente, que é onde o crucifixo costuma aparecer nas horas difíceis.
E reza-se quando a pessoa está passando por humilhação, e não só por dor, porque foi exatamente esse o lugar ocupado ali.