Quem é o Bom Jesus dos Navegantes
Bom Jesus dos Navegantes é Cristo invocado como protetor de quem depende do mar: pescador, marinheiro, mestre de saveiro, capitão. Não é um santo diferente nem uma imagem miraculosa isolada: é a mesma fé em Jesus, dita na linguagem de quem sai para o mar e quer voltar.
A devoção é de irmandade, e isso explica muita coisa. Ela nasceu dentro das associações de gente do mar, que se organizavam para cuidar dos seus, e por isso até hoje a festa é conduzida por quem trabalha na água, e não apenas pelo clero.
A origem, com as datas
Na Bahia, os registros da devoção remontam à década de 1740, ligados às irmandades marítimas e à fé dos pescadores e marinheiros que pediam proteção para enfrentar o mar. A primeira celebração ao Bom Jesus dos Navegantes em Salvador é situada em 1750, iniciada pelos capitães das embarcações.
O calendário escolhido diz o que a festa é: ela acontece na virada, em 31 de dezembro e 1º de janeiro, agradecendo pelo ano que termina e pedindo proteção para o que começa. Não é acaso que a maior devoção marítima do país esteja exatamente nessa data.
O que existe hoje
A festa ocorre no bairro de Boa Viagem, em Salvador, e tem duas procissões marítimas. A primeira, em 31 de dezembro, faz o percurso entre o Largo da Boa Viagem e a Basílica da Conceição da Praia. A segunda, em 1º de janeiro, é uma das mais populares da cidade: centenas de embarcações acompanham a galeota chamada Gratidão do Povo, que conduz a imagem pelas águas da Baía de Todos os Santos.
Quem vê de longe entende a escala: é uma procissão em que a rua é o mar e o andor é um barco. Depois da chegada, a festa continua em terra, no largo, por vários dias.
Onde visitar
O endereço é o bairro de Boa Viagem, na Cidade Baixa de Salvador, com a Basílica da Conceição da Praia como ponto de partida da imagem. Fora da festa, o largo continua sendo lugar de devoção de gente do mar.
A devoção existe também em outras cidades de tradição marítima e fluvial do Brasil, sobretudo no Nordeste e ao longo do rio São Francisco, com procissões locais em datas próprias.
Quando a Igreja celebra
As datas são 31 de dezembro e 1º de janeiro, com a procissão marítima principal no primeiro dia do ano. Como devoção ao Cristo protetor, ela não tem festa própria no calendário universal: a data é a da tradição baiana.
Em outras cidades, as procissões de barco acontecem em datas locais, muitas vezes no verão, quando o mar está mais calmo e a frota consegue navegar em conjunto.
Coisas que pouca gente sabe
A galeota tem nome, e o nome é uma frase: Gratidão do Povo. É ela que leva a imagem na procissão de 1º de janeiro, e o nome da embarcação resume melhor a devoção do que qualquer explicação teológica.
Outro detalhe: são duas procissões, e a maioria das pessoas só conhece a segunda. A do dia 31 de dezembro leva a imagem no sentido inverso, preparando a saída do dia seguinte.
O que muita gente acredita e não é verdade
A confusão mais comum é com Nossa Senhora dos Navegantes, que é devoção mariana, com procissões de barco em outras cidades e datas próprias. Aqui a devoção é a Cristo, e não a Maria.
Também se confunde a festa com a de Nossa Senhora da Boa Viagem, e neste caso a confusão tem razão de ser: em Salvador as duas celebrações acontecem juntas, no mesmo bairro e nas mesmas datas, e o nome do lugar é Boa Viagem. Continuam sendo duas devoções.
E há quem trate a procissão marítima como folclore litorâneo. Ela é ato religioso com Missa, imagem e romaria, e o fato de acontecer sobre a água não muda a natureza dela.
Como e quando rezar
Reza-se ao Bom Jesus dos Navegantes por travessia: viagem, mudança de cidade, começo de ano, trabalho arriscado. Entre a gente do mar, reza-se pela volta em segurança, que é o pedido mais antigo dessa devoção.
Na virada do ano, o costume é acompanhar a procissão ou assistir de terra e rezar um Pai-Nosso pelas famílias que vivem da pesca. Em casa, longe do litoral, muita gente reza ao sair de viagem, com a mesma intenção de sempre: partir e voltar.