Quem é o Bom Jesus da Lapa
A Oração do Bom Jesus da Lapa é rezada por romeiros e por quem tem promessa a cumprir no oeste da Bahia. Como no Bonfim, o Bom Jesus não é um santo: é Jesus Cristo, sob um título ligado a um lugar.
E o lugar aqui é o começo de tudo: uma gruta de pedra às margens do rio São Francisco, que virou santuário e depois cidade. Lapa, aliás, quer dizer isso mesmo: gruta, laje de pedra.
A festa é em 6 de agosto, e a romaria começa dez dias antes.
Ele foi preso por cobrar o que lhe deviam
A história desta devoção começa com uma injustiça, e é bom contá-la inteira.
Francisco de Mendonça Mar nasceu em Lisboa em 1657, filho de ourives, e aprendeu o ofício em casa. Veio para o Brasil trabalhar e abriu oficina em Salvador, que era então a capital.
Em 1688 foi chamado para trabalhar na pintura do palácio do governador. Fez o serviço e não recebeu. Quando foi cobrar o que era seu, foi açoitado e preso.
Guarde essa parte. O homem que fundou o terceiro maior santuário de romaria do Brasil chegou lá depois de apanhar por reclamar de um salário atrasado.
O que ele fez ao sair da cadeia
Solto em 1691, Francisco tomou uma decisão que ninguém esperava: não foi atrás de indenização nem voltou à oficina.
Saiu de Salvador levando duas coisas, e só: uma estampa de Nossa Senhora da Soledade, de quem era devoto, e um crucifixo do Bom Jesus. Foi andando sem destino, procurando um lugar para viver em solidão.
Chegou ao oeste da Bahia, à beira do rio São Francisco, e encontrou uma gruta enorme na rocha. O lugar era conhecido por outro motivo: era morada de onças.
Foi ali que ele ficou. Limpou a gruta, instalou o crucifixo que trazia e a imagem de Nossa Senhora, e transformou aquele buraco na pedra numa capela.
O hospital dentro do sertão
A parte que dá sentido a tudo vem depois, e é o que separa esta história de uma história de eremita.
Francisco não ficou apenas rezando. Construiu ali um hospital e um asilo para pobres e doentes, no meio do sertão, num tempo em que não havia nada daquilo naquela região.
Em volta da gruta e daquela obra foi crescendo um povoado, e daquele povoado nasceu a cidade que hoje se chama Bom Jesus da Lapa.
É por isso que a devoção tem o jeito que tem: ela nasceu de um homem injustiçado que, em vez de se fechar, montou um lugar para cuidar de quem estava pior que ele.
A terceira maior romaria do Brasil
A romaria do Bom Jesus da Lapa acontece todos os anos, de 28 de julho a 6 de agosto, e reúne mais de meio milhão de pessoas.
É a maior romaria da Bahia e a terceira maior do Brasil. Vem gente de todo o Nordeste e de Minas, muita gente a pé, em caminhão pau de arara, em ônibus fretado por comunidade inteira.
O reconhecimento chegou também pela lei: a romaria foi declarada manifestação da cultura nacional pelo Congresso brasileiro.
Quem chega entra na gruta, que é a própria matriz do santuário, e reza dentro da pedra. A cena é uma das mais impressionantes do catolicismo brasileiro.
6 de agosto, o dia da Transfiguração
A data não foi escolhida ao acaso: 6 de agosto é a festa da Transfiguração do Senhor, quando o Evangelho conta que Jesus subiu ao monte e apareceu aos discípulos com o rosto e as vestes transformados em luz.
Faz sentido para um santuário que fica dentro de uma montanha de pedra. A festa do Bom Jesus da Lapa celebra Cristo mostrado em glória, e quem sobe até a gruta está subindo um monte para vê-lo.
Quando se reza ao Bom Jesus da Lapa
Reza-se em promessa, que é a linguagem própria desta devoção: muita gente pede e volta a pé para agradecer.
Reza-se em agosto, no tempo da romaria, e em 6 de agosto, na festa.
Reza-se por causa de trabalho e de justiça, que combina com a origem da história: um homem que não recebeu o que era seu.
E reza-se por quem está começando de novo depois de uma perda, o que Francisco de Mendonça Mar fez com o que tinha na mão, que era um crucifixo e uma estampa.