Quem é Nossa Senhora dos Navegantes
Nossa Senhora dos Navegantes é a invocação de Maria como protetora de quem viaja pela água: marinheiro, pescador, barqueiro e, por extensão, qualquer pessoa em viagem.
O título nasceu no tempo das grandes navegações. A partir do século XVI, os navegadores portugueses entravam em oceanos que ninguém tinha mapeado, com instrumentos precários e sem nenhuma garantia de voltar. Eles rezavam antes de zarpar, e rezavam a ela.
Foi por esses navios que a devoção chegou ao Brasil, e aqui ela ficou.
A oração de quem viaja
O texto rezado é este:
Ó Nossa Senhora dos Navegantes, Mãe de Deus, Criador do céu, da terra, dos rios, lagos e mares, protegei-me em todas as minhas viagens. Que ventos, tempestades, borrascas, raios e ressacas não perturbem a minha embarcação, e que monstro nenhum, nem incidentes imprevistos, causem alteração e atraso à minha viagem, nem me desviem da rota traçada.
Repare no vocabulário. Borrasca, ressaca, embarcação, rota traçada: é linguagem de quem trabalha na água, não de quem escreve sobre a água. A oração foi feita por gente do ofício.
A oração muda de assunto no meio
E aí acontece o que faz dessa oração uma das mais bem construídas da tradição popular.
Depois de pedir por uma viagem de barco de verdade, ela vira e diz: Virgem Maria, Senhora dos Navegantes, minha vida é a travessia de um mar furioso. As tentações, os fracassos e as desilusões são ondas impetuosas que ameaçam afundar minha frágil embarcação no abismo do desânimo e do desespero.
Do meio para o fim, o mar deixa de ser água. A tempestade vira o fracasso, a onda vira a desilusão, e a embarcação vira a própria vida de quem reza.
O fecho amarra tudo: com a vossa proteção e a bênção de vosso Filho, a embarcação da minha vida há de ancorar segura e tranquila no porto da eternidade.
Ou seja: quem não vai entrar em barco nenhum também tem o que rezar aqui. E foi por isso que a oração saiu do cais e virou oração de viagem, de mudança e de recomeço.
Estrela do Mar, o título por trás do título
A ideia de invocar Maria como guia de quem navega é bem mais antiga do que as caravelas.
Na Idade Média ela já era chamada de Stella Maris, que quer dizer Estrela do Mar. O sentido é direto e prático: antes de existir bússola confiável, quem estava no meio do oceano se orientava pelas estrelas. A estrela não leva ninguém a lugar nenhum, ela apenas mostra onde fica o norte, e quem navega faz o resto.
Nossa Senhora dos Navegantes é a versão portuguesa e marítima dessa mesma ideia.
2 de fevereiro, e não é uma data qualquer
A festa é em 2 de fevereiro, e esse dia já tinha dono no calendário.
Em 2 de fevereiro a Igreja celebra a Apresentação do Senhor: quarenta dias depois do Natal, Maria e José levaram o menino ao Templo de Jerusalém, conforme a lei. É uma das celebrações mais antigas do ano litúrgico e é conhecida também como festa das velas, pela procissão com luzes que a acompanha.
Então, no mesmo dia, o calendário guarda a mãe que leva o Filho ao Templo e a mãe invocada como estrela por quem precisa de luz para achar o caminho na água.
Quem for à Missa nesse dia vai ouvir a leitura da Apresentação. A devoção dos navegantes acontece em volta dela, no mesmo dia, e não no lugar dela.
A maior festa religiosa de Porto Alegre
No Brasil, o lugar onde essa devoção mais cresceu foi o Rio Grande do Sul.
Em Porto Alegre, cidade de colonização açoriana, portugueses residentes fundaram há mais de cento e cinquenta anos uma devoção a Nossa Senhora como padroeira dos marinheiros. A imagem foi mandada vir de Portugal em novembro de 1870 e chegou dois meses depois.
Todo 2 de fevereiro há procissão no rio Guaíba, com barcos acompanhando a imagem pela água, e a festa reúne uma multidão: em algumas edições, mais de cem mil pessoas. É a maior festa religiosa da cidade.
Quando se reza a Nossa Senhora dos Navegantes
Reza-se antes de viajar, de qualquer jeito e por qualquer meio, e essa é a razão mais comum hoje.
Reza-se por quem trabalha na água: pescador, marinheiro, barqueiro, gente de plataforma e de balsa.
Reza-se em 2 de fevereiro, o dia da festa.
E reza-se quando a vida está na parte do meio da oração, aquela do mar furioso, do fracasso e do desânimo. A oração já previu esse uso, e é o que ela pede no fim: chegar inteiro ao porto.