Quem é Nossa Senhora da Seringueira
Nossa Senhora da Seringueira do Acre é a devoção mariana mais própria da Amazônia brasileira, e a única que carrega no corpo da imagem a marca de uma guerra. Ela é copadroeira do Estado do Acre e foi padroeira da chamada Terceira República do Acre, além de ser tratada como padroeira dos seringueiros.
A imagem não é uma escultura, é um quadro. Maria aparece com o Menino Jesus em um braço e, na outra mão, um ramo de seringueira, a árvore que sustentou economicamente toda aquela região.
A origem, com as datas
A pintura foi feita por um indígena boliviano de quem só restaram as iniciais L.P., e a tradição conta que ele afirmou ter visto Nossa Senhora segurando na mão um ramo de seringueira.
O quadro entrou para a história do Brasil durante a Revolução Acreana. Segundo o relato preservado, os bolivianos usaram a imagem em uma procissão para se aproximar das posições inimigas, e Plácido de Castro disparou contra o quadro. Os furos de bala continuam visíveis na pintura até hoje.
Depois da revolução, a imagem desapareceu. Ficou anos fora do estado, no Rio de Janeiro, e só retornou ao Acre em 1954. Passou a ser guardada no Instituto Imaculada Conceição até 2003, e depois foi levada ao Parque Capitão Ciríaco, antigo seringal urbano de Rio Branco, onde existe uma capela dedicada a ela.
Em 1º de maio de 2016, a imagem foi entronizada na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco, em celebração presidida pelo bispo Dom Joaquín Pertíñez.
O que existe hoje
Quem quiser ver a imagem encontra o quadro na catedral de Rio Branco. O Parque Capitão Ciríaco, que guarda a memória do seringal dentro da cidade, mantém a capela com o nome da devoção. A pintura passou por restauro e voltou ao estado depois do trabalho de conservação.
Onde visitar
O roteiro dessa devoção fica todo em Rio Branco: a Catedral Nossa Senhora de Nazaré, no centro, e o Parque Capitão Ciríaco, que preserva a área do antigo seringal urbano. Quem for ao Acre nas datas cívicas encontra as duas coisas juntas, a celebração religiosa e a memória do estado.
Quando a Igreja celebra
As duas datas ligadas a essa devoção são cívicas e religiosas ao mesmo tempo: 27 de janeiro, aniversário da independência do Acre, e 17 de novembro, data do Tratado de Petrópolis, que incorporou o território ao Brasil. É devoção de estado no sentido literal da palavra.
Coisas que pouca gente sabe
O autor da pintura era indígena e boliviano, ou seja, a padroeira acreana foi pintada por alguém do lado de lá da fronteira. Os tiros que o quadro levou vieram do líder do movimento que fundou o Acre brasileiro, e a devoção sobreviveu aos dois lados da história. E o quadro passou décadas longe do estado, guardado no Rio de Janeiro, antes de voltar em 1954.
O que muita gente acredita e não é verdade
Muita gente supõe que a imagem tenha sido pintada por encomenda da Igreja, para marcar a vitória acreana. Não foi: a pintura é anterior ao episódio e nasceu de uma devoção popular na fronteira, tanto que apareceu em mãos bolivianas durante o conflito.
Também não se trata de uma santa diferente de Maria. Seringueira é o sobrenome que o povo do Acre deu a Nossa Senhora, do mesmo jeito que outras regiões acrescentam o nome de um rio, de uma cidade ou de um ofício.
Como e quando rezar
É devoção de quem trabalha no mato e de quem vive do que a terra dá: seringueiro, ribeirinho, extrativista, agricultor. Reza-se pedindo o sustento do trabalho, a proteção na estrada e no rio, e a justiça para quem produz muito e recebe pouco. Nas datas de janeiro e novembro, as comunidades acreanas rezam juntas, misturando a fé e a memória do estado.