Quem é Nossa Senhora de Nazaré
A Oração de Nossa Senhora de Nazaré é rezada em todo o Brasil, e com força especial no Norte: ela é o centro da maior procissão religiosa do país, o Círio de Nazaré, em Belém do Pará.
O nome vem do lugar onde Maria viveu. Nazaré era um povoado pequeno da Galileia, sem importância nenhuma na época, e é ali que o Evangelho situa a vida comum da Sagrada Família: a casa, o trabalho de José, os anos em que nada de extraordinário foi registrado. Rezar a Nossa Senhora de Nazaré é rezar à Maria da vida cotidiana.
O que se pede na oração de Nossa Senhora de Nazaré
A oração desta devoção tem um eixo diferente do que se costuma esperar: ela pede para imitar, não apenas para receber.
Quem reza lembra a resposta que Maria deu ao anjo, eis aqui a escrava do Senhor, e pede a graça de imitar aquela humildade e aquela caridade, vivendo unido a Jesus como ela viveu no recolhimento de Nazaré. E fecha com a invocação que o povo do Pará repete o ano inteiro: Nossa Senhora de Nazaré, rogai por nós.
É uma oração para quem tem uma vida sem nada de espetacular e desconfia que isso seja pouco. A resposta dela é justamente essa: trinta anos de Nazaré também foram vida de Deus.
De Nazaré da Galileia a Nazaré de Portugal
A devoção chegou ao Brasil pelo caminho português, e vale conhecer a escala anterior.
Em Portugal existe uma vila chamada Nazaré, na costa, e ali se venera desde a Idade Média uma pequena imagem de madeira da Virgem com o Menino, de pele escura, sentada e amamentando. É de lá que vem o nome e a devoção que atravessou o Atlântico.
O que dá a essa devoção um lugar próprio na história do Brasil é quem parou naquele santuário antes de zarpar. A tradição portuguesa registra que Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral foram em peregrinação ao Sítio da Nazaré antes e depois das viagens deles. Era a devoção da gente do mar, e o mar foi o caminho até aqui.
O cavaleiro que parou na beira do penhasco
A origem portuguesa tem uma cena que explica por que aquela imagem virou santuário.
Segundo a tradição, em 14 de setembro de 1182, um cavaleiro chamado Fuas Roupinho caçava perto da costa em meio a uma névoa fechada quando saiu atrás de um veado. Percebeu tarde onde estava: no alto do penhasco, à beira do precipício. Invocou a Virgem, cuja imagem era venerada numa gruta ali perto, e o cavalo parou.
No lugar foi erguida uma pequena capela, que ainda existe, e a partir dela cresceu a devoção. Este é relato de tradição, guardado pela memória portuguesa, e é assim que ele deve ser lido.
A imagem que voltava para o mesmo lugar
Do lado de cá, a história começa por volta de 1700, e há documento sobre ela.
Um homem chamado Plácido José de Souza encontrou, à margem de um igarapé em Belém, uma pequena imagem de madeira de Nossa Senhora com o Menino ao colo, com pouco menos de trinta centímetros. Levou-a para casa. No dia seguinte, a imagem não estava lá: estava de volta ao mesmo lugar onde havia sido achada. Segundo o relato dele, isso se repetiu várias vezes.
O que sustenta essa história não é só a boca do povo. O quinto bispo do Pará, Dom Frei João Evangelista, que governou a diocese entre 1772 e 1782, registrou por escrito a conversa que teve com Plácido sobre o achado.
A imagem original está hoje na Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, inaugurada em 1941, guardada em redoma de cristal no altar-mor.
Círio quer dizer vela
Quase ninguém sabe o que a palavra significa, e o sentido dela explica o gesto de milhões de pessoas.
Círio vem do latim cereus, que quer dizer vela grande de cera. Nas antigas procissões portuguesas, a vela era a oferta principal que os fiéis levavam, e a palavra que nomeava a oferta acabou nomeando a própria procissão.
Por isso o Círio não é apenas uma caminhada com uma imagem: é, no nome, uma procissão de luz oferecida. Quem carrega vela ali está fazendo exatamente aquilo que deu nome à festa.
O segundo domingo de outubro
O Círio de Nazaré acontece sempre no segundo domingo de outubro, em Belém, e é a maior manifestação religiosa do Brasil e uma das maiores do mundo.
A cidade para. Ruas são cobertas de tapetes, casas se abrem, famílias inteiras se organizam em torno daquele dia, e a corda que acompanha o carro da imagem é levada por gente que cumpre promessa andando descalça por horas.
Para o Brasil inteiro, vale saber o tamanho disso: nenhuma outra procissão do país reúne tanta gente, e a devoção que a move é esta.
Quando se reza a Nossa Senhora de Nazaré
Reza-se em outubro, no tempo do Círio, e ao longo do ano na invocação curta que o povo do Pará usa a toda hora.
Reza-se por casa e por família, que é a intenção mais própria deste título: Nazaré é o nome do lugar onde a Sagrada Família viveu a vida comum.
Reza-se por quem viaja e por quem trabalha no mar, herança da devoção portuguesa dos navegantes. E reza-se em promessa, que é a linguagem própria desta devoção no Norte: muita gente pede e volta para agradecer andando.