Quem é Nossa Senhora das Dores
A Oração de Nossa Senhora das Dores é rezada por quem está sofrendo e por quem acompanha o sofrimento de alguém que ama. Não é um título ligado a uma aparição nem a um lugar: é Maria vista pelo lado que o Evangelho mostra sem esconder, o de uma mãe que viu o filho morrer.
A festa é em 15 de setembro, no dia seguinte à Exaltação da Santa Cruz. A ordem das duas datas não é acidente: primeiro a Igreja olha a cruz, depois olha quem estava de pé ao lado dela.
O que se pede na oração de Nossa Senhora das Dores
A oração mais rezada no Brasil não pede que o sofrimento acabe. Ela pede companhia dentro dele. Quem reza apresenta a ela as próprias necessidades, mágoas e tristezas, e faz um pedido que resume a devoção inteira: que ela, que esteve presente no Calvário de Jesus, esteja presente também nos calvários de quem reza.
Há uma frase no fim que muita gente repete três vezes, e que diz o que se busca ali: fortalecei-me nos sofrimentos da vida. Não é pedido de fuga, é pedido de força.
As sete dores de Maria, uma por uma
A tradição reuniu sete momentos em que a dor atravessou a vida dela. Esta é a lista como a Ordem dos Servos de Maria a reza:
A primeira é a profecia de Simeão, no Templo, quando Jesus era recém-nascido (Lucas 2,34-35). A segunda é a fuga para o Egito, com José e o menino, escapando de Herodes (Mateus 2,13-14). A terceira é a perda de Jesus em Jerusalém, quando ele tinha 12 anos, e os três dias de procura (Lucas 2,43-45).
A quarta é o encontro com o Filho no caminho do Calvário. A quinta é ela de pé ao lado da cruz, e essa é a única das sete em que o Evangelho a nomeia diretamente na cena (João 19,25-27). A sexta é receber nos braços o corpo descido da cruz. A sétima é o sepultamento.
A espada que ela ouviu anunciada com o bebê no colo
A primeira dor é a mais difícil de imaginar, e por isso vale demorar nela.
Maria e José levaram Jesus ao Templo para apresentá-lo, como a Lei pedia. Ali estava Simeão, um homem velho que esperava a vida inteira por aquele momento. Ele tomou o menino nos braços, bendisse a Deus, e então se virou para a mãe e disse que aquele filho seria sinal de contradição, e que uma espada atravessaria a alma dela.
Ela estava com o filho recém-nascido no colo, no dia de uma festa, ouvindo aquilo. E o Evangelho não registra nenhuma reação: nem protesto, nem pergunta. Guardou.
Essa cena é a razão de as imagens dela aparecerem com uma espada, ou com sete, cravadas no coração. As espadas não são um objeto de devoção: são a frase de Simeão desenhada.
A quarta dor, a que o Evangelho não descreve
Aqui é preciso ser exato, porque a diferença importa.
Lucas conta o caminho até o Calvário: Simão Cirineu carregando a cruz, e uma multidão de mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Jesus (Lucas 23,26-27). O Evangelho não nomeia Maria naquele instante.
O encontro entre os dois no caminho é guardado pela tradição da Igreja e pela Via Sacra, onde é a quarta estação. Não é invenção: é memória transmitida, do mesmo tipo que sustenta tantas devoções antigas. Só não é uma cena descrita com esse nome nos Evangelhos, e quem reza merece saber a diferença entre as duas coisas.
A Coroa das Sete Dores e como se reza
A devoção tem uma oração própria, chamada Coroa das Sete Dores, e ela nasceu na Itália em 1617, por iniciativa da Ordem dos Servos de Maria, os Servitas.
A estrutura é simples: sete grupos, cada um com um Pai-Nosso e sete Ave-Marias, um para cada dor, e ao final três Ave-Marias em honra das lágrimas dela. A cada dor, quem reza para um instante e pensa naquela cena antes de seguir.
Os Servitas encerram com um pedido curto: proteja-nos Santa Maria e benigna nos acompanhe pelos caminhos da vida.
Por que a festa é em 15 de setembro
A data levou séculos para se firmar, e a história ajuda a entender o lugar dessa devoção.
A Ordem dos Servos de Maria nasceu em 1233 e foi a principal responsável por espalhar o culto. Em 1668, os Servitas receberam autorização para celebrar a Missa das Sete Dores. Em 1692, o Papa Inocêncio XII fixou a festa no terceiro domingo de setembro. Em 1814, o Papa Pio VII a estendeu à Igreja inteira.
Foi o Papa Pio X quem a colocou definitivamente em 15 de setembro, com o título de Nossa Senhora das Dores, logo depois da Exaltação da Santa Cruz. Houve tempo em que a memória era celebrada também na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos, a Sexta-feira das Dores, e é por isso que em muitas comunidades o nome ainda aparece ligado à Semana Santa.
Na liturgia da Missa desse dia, a oração é direta: ó Deus, quando o vosso Filho foi exaltado, quisestes que sua mãe estivesse de pé, junto à cruz, sofrendo com ele.
Por que tanta gente reza a ela no sofrimento
Porque não há nada a explicar a ela. Quem perdeu um filho, quem acompanha um tratamento, quem cuida de alguém que não vai melhorar, quem enterrou alguém cedo: ninguém precisa começar do começo.
A devoção às Dores não promete que a dor vai embora. Ela oferece uma companhia que já passou por ali e não fugiu. E aponta para o que veio depois, porque a mesma oração da Missa pede que, unidos a Maria na paixão de Cristo, participemos também da ressurreição dele.
Quando se reza a Nossa Senhora das Dores
Reza-se em 15 de setembro, dia da memória. Reza-se na Semana Santa, sobretudo na Sexta-feira Santa. Reza-se ao lado de uma cama de hospital, num velório, no dia em que chega uma notícia difícil.
E reza-se pelos filhos, que é talvez o pedido mais antigo dirigido a ela: que uma mãe que viu tudo o que viu cuide dos filhos de quem está pedindo.