Quem é Nossa Senhora de Lampadosa
Nossa Senhora de Lampadosa é um título mariano que veio do Mediterrâneo e criou raiz brasileira em terreno improvável: o Centro do Rio de Janeiro, nas mãos de uma irmandade formada por pessoas negras, escravizadas e libertas.
A imagem mostra Maria como uma mãe jovem, segurando um coração na mão direita, sinal do amor, enquanto ampara com o braço esquerdo o Menino Jesus, que traz uma pomba, sinal do Espírito Santo.
A origem, com as datas
A devoção nasceu na ilha de Lampedusa, no Mediterrâneo. A tradição conta que a Virgem apareceu ali a um italiano que estava escravizado, no fim do século XVI. Esse relato é apresentado como tradição, não como fato documentado.
No Rio de Janeiro, a devoção se espalhou entre pessoas negras escravizadas, que primeiro se reuniram em torno de um altar lateral no templo de Nossa Senhora do Rosário. A irmandade própria foi criada na primeira metade do século XVIII e, nos anos 1740, recebeu terreno e começou a erguer a própria casa de oração.
O templo colonial foi demolido no século XX. O prédio atual, em traço neocolonial, foi projetado pelos arquitetos Paulo Candiota e Eduardo de Sá e inaugurado nos anos 1930.
A ligação com Tiradentes
O templo ficava perto da forca onde Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado, no cruzamento das atuais Rua Senhor dos Passos e Avenida Passos. Foi ali que ele pôde fazer as últimas orações, no dia da execução, antes de subir ao patíbulo.
Esse detalhe transformou a devoção em ponto de memória nacional: o mártir da Inconfidência rezou diante da padroeira de uma irmandade de pessoas negras, num Brasil que ainda escravizava gente.
O que existe hoje
O templo continua de pé na Avenida Passos, no Centro do Rio, e a Venerável Confraria de Nossa Senhora da Lampadosa mantém viva uma devoção de mais de dois séculos e meio. É lugar de missa no meio do dia, no ritmo do Centro, cercado de comércio popular.
Onde visitar
O endereço é a Avenida Passos, no Centro do Rio de Janeiro, a poucos passos da Praça Tiradentes. Quem visita costuma emendar o roteiro com o templo de Nossa Senhora do Rosário, onde a devoção começou, e com a própria praça, que leva o nome do mártir.
Quando a Igreja celebra
Não há data única no calendário universal, porque o título é local. A festa segue o calendário da confraria e da Arquidiocese do Rio de Janeiro, então a orientação prática é conferir a programação do templo antes de programar a visita.
Coisas que pouca gente sabe
O nome vem de uma ilha italiana que hoje é conhecida por outro motivo: Lampedusa é ponto de chegada de migrantes que cruzam o Mediterrâneo. A devoção nasceu de um relato de cativeiro e foi adotada, do outro lado do oceano, por gente em cativeiro. E a irmandade era dona do próprio templo, o que significava patrimônio e autonomia para pessoas negras num tempo em que isso era raríssimo.
O que muita gente acredita e não é verdade
Muita gente pensa que o templo é o mesmo de época colonial. Não é: a construção antiga foi demolida e o prédio atual é do século XX, embora a irmandade e a devoção sejam de dois séculos antes.
Outro engano é achar que Lampadosa seja outra Virgem. É Maria, com o nome do lugar onde a tradição situa a origem da devoção, exatamente como acontece com Fátima, Lourdes ou Aparecida.
Como e quando rezar
Essa devoção é rezada por quem está preso a alguma coisa: cadeia de verdade, dívida, dependência, situação sem saída. A história dela é feita de gente que rezou em cativeiro, e é isso que ela oferece a quem chega, a companhia de uma mãe que não desconhece a humilhação.