Quem é Nossa Senhora da Boa Viagem
Nossa Senhora da Boa Viagem é a invocação de Maria como protetora de quem está a caminho.
É padroeira de Belo Horizonte, com festa em 15 de agosto, e dá nome a paróquias e bairros em várias partes do país.
Quase todo mundo supõe que esse título tenha nascido entre gente do mar. A origem é outra, e é bem mais interessante.
A oração a Nossa Senhora da Boa Viagem
Esta é a oração rezada a ela:
Virgem Santíssima, Senhora da Boa Viagem, esperança infalível dos filhos da Santa Igreja, sois guia e eficaz auxílio dos que transpõem a vida por entre perigos do corpo e da alma. Refugiando-nos sob o vosso olhar materno, empreendemos nossas viagens certos do êxito que obtivestes quando vos encaminhastes para visitar vossa prima Santa Isabel. Em ascensão crescente na prática de todas as virtudes transcorreu a vossa vida, até o ditoso momento de subirdes gloriosa para os céus. Nós vos suplicamos, pois, ó Mãe querida: velai por nós, indignos filhos vossos, alcançando-nos a graça de seguir os vossos passos, assistidos por Jesus e José, na peregrinação desta vida e na hora derradeira de nossa partida para a eternidade. Amém.
O título não nasceu no mar
A invocação vem das viagens que Maria fez, e elas estão todas no Evangelho.
Ela sobe a região montanhosa para visitar a prima Isabel. Vai de Nazaré a Belém para o recenseamento. Foge para o Egito com o marido e o filho pequeno. E depois volta do Egito para Nazaré.
São quatro deslocamentos longos, num tempo sem estrada boa, sem hospedaria confiável e sem qualquer garantia de chegar.
O título saiu daí. Depois, sim, os navegadores portugueses o adotaram e passaram a levar a imagem a bordo, e é por isso que a devoção soa marítima hoje. Mas ela é anterior ao mar.
Quatro viagens, e nenhuma de passeio
Vale olhar uma por uma, porque o conjunto diz muita coisa.
A primeira ela faz logo depois de receber a notícia que mudou a vida dela, e vai ver alguém que também estava grávida.
A segunda ela faz grávida de quase nove meses, obrigada por uma exigência do governo, e termina num lugar emprestado porque não havia vaga.
A terceira é uma fuga, de noite, com uma criança de colo, para escapar de quem queria matá-la.
A quarta é a volta, depois que o perigo passou.
Nenhuma delas é viagem escolhida. Todas são viagens que a vida impôs, e três delas em condições que hoje chamaríamos de emergência.
É esse o currículo por trás do título. Não é a padroeira de quem viaja bem: é a de quem precisou ir.
A oração escolhe uma dessas quatro
Repare no que o texto rezado faz.
Entre as quatro, ele cita nominalmente uma: a visita à prima Isabel. E diz que empreendemos nossas viagens "certos do êxito que obtivestes" naquela.
É a única das quatro que foi por escolha própria, e a única feita para ajudar outra pessoa.
Ou seja: a oração não pede uma viagem sem perigo. Pede uma viagem que sirva para alguma coisa, como aquela serviu.
Como o título chegou ao Brasil
Veio com os portugueses, e cedo.
Por volta de 1707 já havia uma capela dedicada a ela na praia do Recife, levantada pelo padre Leandro Carmelo, e daí vem o nome do bairro que hoje muita gente conhece sem saber a origem.
Em Belo Horizonte, ela é a padroeira da cidade, condição oficializada pelo Papa Pio XII, e a festa dela é um dos maiores eventos religiosos do calendário mineiro.
Quando se reza a Nossa Senhora da Boa Viagem
Reza-se antes de pegar a estrada, de entrar no avião ou de sair para um trajeto longo.
Reza-se por quem trabalha viajando: caminhoneiro, motorista de aplicativo, entregador, representante que vive na estrada.
Reza-se por quem está mudando de cidade ou de país sem ter escolhido isso, que é a situação de três das quatro viagens dela.
E reza-se em 15 de agosto, dia da festa.