Quem é Nossa Senhora da Abadia
Nossa Senhora da Abadia é um dos títulos da Virgem Maria, e o nome dele vem do lugar onde a devoção nasceu: um mosteiro.
A origem é portuguesa. A imagem vem do Mosteiro de Santa Maria do Bouro, em Amares, perto de Braga, casa que já existia por volta do ano 883.
A festa é em 15 de agosto.
No Brasil, a devoção chegou com os portugueses e se espalhou pelo interior: pela Bahia, por Goiás e, com força especial, pelo Triângulo Mineiro.
A oração de Nossa Senhora da Abadia
O texto rezado a ela é este:
Senhora D'Abadia, filha dileta de Deus Pai, Mãe de Jesus, nosso Salvador, esposa do Espírito Santo, eis-me aqui diante de vossa imagem, para consagrar-me inteiramente a Vós. Trago-vos, Senhora, minha vida, meu trabalho, os sofrimentos e as alegrias, as lutas e as esperanças, tudo que tenho e sou, para oferecer a vosso Filho por vossas mãos de Mãe. Sou todo vosso, ó Maria. Peço vossa proteção para nunca abandonar a fé católica, traindo a Jesus. Dai-me força para viver de verdade o amor fraterno e assumir minha responsabilidade de cristão no mundo. Ó Senhora D'Abadia, aceitai-me como filho e guardai-me sob o vosso manto protetor. Amém.
O que a palavra Abadia guarda na raiz
Aqui está a coisa mais bonita deste título, e ela passa despercebida porque está escondida dentro da palavra.
Abadia é a casa de um abade.
Abade vem do latim abbas, que veio do grego, que por sua vez veio do aramaico: abba.
E abba quer dizer pai.
É a palavra que Jesus usa quando está no Getsêmani, na noite mais difícil da vida dele, e reza dizendo: Abba, Pai. É também a palavra que o apóstolo Paulo guarda em grego, sem traduzir, quando escreve que recebemos um espírito de filhos, no qual clamamos: Abba, Pai.
Abba não é o modo formal de dizer pai. É o modo íntimo, o que uma criança usa dentro de casa.
Ou seja: um título dado à Mãe carrega, no fundo do próprio nome, a palavra com que o Filho chamava o Pai.
Ninguém planejou isso. Veio pelo caminho comprido da língua, do aramaico ao grego, do grego ao latim, do latim ao português, passando por um mosteiro no norte de Portugal. Mas está lá.
Do mosteiro escondido dos mouros
A história da imagem começa com um desaparecimento.
Naquela região de Portugal, no tempo das invasões, os monges deixaram o mosteiro. Antes de sair, esconderam a imagem da Virgem, para que ela não fosse profanada.
E ali ela ficou, sem ninguém.
Foi reencontrada por volta de 1100, por eremitas que viviam naquelas terras. Passaram-se, portanto, cerca de três séculos entre o esconderijo e o reencontro.
A devoção que existe hoje no Brasil, com romaria, missa e promessa, nasceu de uma imagem que alguém escondeu na pressa e que outra pessoa achou muito tempo depois, sem estar procurando.
A cidade que trocou de nome por causa da festa
No Triângulo Mineiro havia um povoado chamado Água Suja.
Em 1870, um morador da região, Joaquim Perfeito Alves Ribeiro, trouxe para lá uma imagem de Nossa Senhora da Abadia. Em 19 de julho de 1872 foi criada a Paróquia, e no fim do século XIX a romaria já era grande.
Com o tempo, o nome do lugar deixou de fazer sentido. Aquilo ali não era mais um povoado com um córrego de nome feio: era o destino de milhares de pessoas todo mês de agosto.
O povoado passou a se chamar Romaria.
É o nome da cidade até hoje, no mapa de Minas Gerais, e lá está o Santuário Basílica de Nossa Senhora da Abadia. A cidade não foi batizada com o nome de um santo nem de um fundador: foi batizada com o nome daquilo que as pessoas iam fazer ali.
Há também, em Uberlândia, um santuário dedicado a ela, criado em 1998.
O que a oração pede, e o que ela não pede
Vale ler a oração devagar, porque ela surpreende.
Numa devoção de romaria, onde muita gente chega depois de dias de estrada e com uma promessa para cumprir, seria natural que o texto pedisse graças, saúde, solução.
Não pede.
Ela começa oferecendo: trago-vos minha vida, meu trabalho, os sofrimentos e as alegrias, as lutas e as esperanças, tudo que tenho e sou.
E os dois únicos pedidos são estes: proteção para nunca abandonar a fé, e força para viver o amor fraterno e assumir a responsabilidade de cristão no mundo.
Ou seja, o segundo pedido não é por algo que se receba. É por algo que se faça.
Quem reza está pedindo para dar conta de uma tarefa, não para ser dispensado dela.
Quando se reza a Nossa Senhora da Abadia
Reza-se em 15 de agosto, dia da festa, e nos dias de romaria que a cercam.
Reza-se pela família e pelo trabalho, que são as duas coisas que a oração nomeia primeiro.
Reza-se por quem está em momento de decisão e precisa de firmeza para não desistir da fé.
Reza-se ao começar ou terminar uma caminhada de romaria, que é o gesto próprio desta devoção.
E reza-se como oração de entrega, no sentido literal do texto: quem reza não pede primeiro, oferece primeiro.