Quem foi São Tomás More
Tomás More, ou Thomas More na grafia inglesa completa, nasceu em Londres, em 7 de fevereiro de 1478. Era advogado, escritor e homem público, e chegou ao cargo mais alto que um leigo podia ocupar na Inglaterra da época: foi Lorde Chanceler do reino, de 1529 a 1532, no governo de Henrique VIII.
Morreu decapitado em 6 de julho de 1535, por decisão do mesmo rei que o havia nomeado.
A Igreja o celebra em 22 de junho, e ele é o padroeiro dos políticos e dos governantes.
Tomás More, Thomas More ou Tomás Moro
As três formas aparecem por aí, e vale saber por quê.
O nome dele, em inglês, é Thomas More, como está registrado nos documentos do próprio tempo.
Em português, o costume antigo era aportuguesar o nome inteiro, e daí veio Tomás Moro, forma que o calendário litúrgico em português usa até hoje. É a mesma lógica que faz a gente dizer Londres em vez de London: quando um nome estrangeiro passa a ser usado todo dia, ele se ajusta ao jeito de falar daqui.
O uso mais comum no Brasil, hoje, junta as duas coisas: traduz o primeiro nome e conserva o sobrenome como ele é. Por isso Tomás More.
Existe ainda uma quarta forma, latinizada, Thomas Morus, que aparece em textos antigos.
Nenhuma delas está errada. É a mesma pessoa, o mesmo santo e o mesmo dia.
A oração do bom humor, escrita na prisão
A oração mais conhecida dele é a que menos se espera de alguém na situação em que ele estava. Chama-se Oração do Bom Humor, e ele a escreveu preso, enquanto aguardava a execução:
Dai-me, Senhor, um pouco de sol, algum trabalho e um pouco de alegria. Dai-me o pão de cada dia, uma boa digestão e algo para digerir. Dai-me uma maneira de ser, de forma que eu seja capaz de ignorar o aborrecimento, as lamentações e os suspiros. Não permitais que eu me preocupe demasiadamente com esta coisa embaraçosa que eu sou. Dai-me, Senhor, a dose de humor suficiente para que eu encontre a felicidade nesta vida e para que eu seja útil aos outros.
Leia de novo pensando em onde ele estava. Um homem que perdeu cargo, casa e liberdade, que sabia que seria morto, pediu sol, trabalho, comida e senso de humor.
E há uma linha ali que é das mais humanas que já se escreveram numa oração: não permitais que eu me preocupe demasiadamente com esta coisa embaraçosa que eu sou.
O cargo que ele largou
Henrique VIII quis anular o casamento com Catarina de Aragão, e a Igreja não concordou. O rei então rompeu e se declarou chefe supremo da Igreja na Inglaterra.
Tomás More era o segundo homem mais poderoso do reino e ficou numa posição impossível: ou assinava, ou perdia tudo.
Ele não assinou. Renunciou ao cargo em 1532, e passou a viver sem salário e sem influência, com a família em dificuldade. Depois foi preso na Torre de Londres, julgado e condenado.
Vale reparar no que ele não fez. Não organizou oposição, não conclamou ninguém a se revoltar e não atacou o rei em público. Apenas se recusou a jurar o que não acreditava, e ficou em silêncio sobre o resto.
Servidor do rei, mas primeiro de Deus
Antes de morrer, ele declarou publicamente que morria na fé e pela fé da Igreja, e disse a frase que ficou:
Morro fiel servidor de Deus e do rei, mas primeiro de Deus.
Repare que ele não renega o rei nem se declara inimigo dele. Diz que serve aos dois, e diz a ordem. O problema nunca foi obedecer: foi obedecer a quem, quando os dois pedem coisas opostas.
Ele pediu ainda, na mesma ocasião, que rezassem para que Deus iluminasse e aconselhasse o rei. Pediu isso sobre o homem que o estava mandando matar.
Padroeiro dos políticos
Foi canonizado em 1935. Bem depois, o Papa João Paulo II o declarou padroeiro dos governantes e dos políticos.
A escolha diz alguma coisa. Para representar quem exerce o poder, a Igreja escolheu justamente um homem que abriu mão do cargo quando manter o cargo custaria a consciência.
É um padroeiro que não protege a carreira de ninguém. Protege a possibilidade de sair dela inteiro.
Quando se reza a São Tomás More
Reza-se em 22 de junho, o dia dele.
Reza-se por quem trabalha em política, no serviço público, no direito e em qualquer função em que exista pressão para assinar o que não se acredita.
Reza-se quando é preciso dizer não a alguém mais poderoso, que foi a vida dele resumida.
E reza-se com a oração do bom humor em qualquer dia ruim, lembrando de onde ela veio: se ela coube ali, cabe em quase tudo.