O que a palavra quer dizer
Mártir vem do grego e significa testemunha. Não é quem sofre muito, nem quem morre de forma trágica: é quem dá testemunho de Cristo com a própria vida, até o fim.
O Catecismo da Igreja Católica, no número 2473, define assim: o martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé, e designa um testemunho que vai até a morte.
As três portas para os altares
Para a Igreja reconhecer alguém como santo, existem caminhos diferentes, e vale conhecer os três, porque quase ninguém sabe que são três.
O primeiro é o das virtudes heroicas, o caminho de quem viveu a fé de modo exemplar até a morte natural. O segundo é o do martírio, para quem foi morto por causa da fé, e nesse caso não se exige milagre para a beatificação.
O terceiro é o mais recente: o oferecimento da vida, criado pelo Papa Francisco no documento Maiorem hac dilectionem, de 11 de julho de 2017. Ele vale para quem entregou livremente a vida pelos outros, aceitando uma morte certa, e ficou entre os dois primeiros casos.
Como a Igreja reconhece um mártir
O ponto que decide é o motivo da morte. A Igreja examina se a pessoa foi morta por ódio à fé, e se aceitou a morte sem renegar aquilo em que acreditava.
Por isso um processo de martírio olha documento, testemunha, contexto histórico e as palavras do próprio perseguidor. Não é a dor que faz o mártir: é a razão da morte e a resposta de quem morreu.
Os mártires do Brasil
O Brasil tem os seus, e eles têm nome e data. Em 16 de julho de 1645, no engenho de Cunhaú, e em 3 de outubro do mesmo ano, em Uruaçu, no Rio Grande do Norte, dezenas de católicos foram mortos por causa da fé, num tempo de invasão e de intolerância religiosa.
Entre eles estavam o padre André de Soveral, o padre Ambrósio Francisco Ferro e o leigo Mateus Moreira, com outros vinte e sete companheiros. Eles são chamados protomártires do Brasil, ou seja, os primeiros.
Foram declarados beatos por João Paulo II em 5 de março de 2000 e canonizados pelo Papa Francisco em 15 de outubro de 2017, na Praça de São Pedro. Na homilia daquele dia o Papa disse que eles não disseram sim ao amor apenas com palavras, mas com a vida, e até o fim.
O século XXI tem mais mártires do que se imagina
Em 2023, o Papa Francisco criou no Dicastério das Causas dos Santos uma comissão para levantar os cristãos mortos por causa da fé neste século.
O resultado impressiona: o catálogo chegou a 1.640 nomes, de cristãos mortos em várias partes do mundo. A pesquisa não se limitou a católicos, e essa escolha tem nome antigo, dado por João Paulo II: ecumenismo do sangue.
Em 14 de setembro de 2025, festa da Exaltação da Santa Cruz, esses mártires foram lembrados numa celebração em Roma com representantes de outras comunidades cristãs, e entre os nomes recordados estava a irmã Dorothy Stang, morta no Pará.
Onde visitar
No Brasil, o roteiro passa pelo Santuário dos Mártires, em São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, ligado à memória de Cunhaú e Uruaçu.
Em Roma, o Coliseu e as catacumbas guardam a memória dos mártires dos primeiros séculos, e a Basílica de São Bartolomeu, na ilha do Tibre, é o lugar dedicado aos mártires modernos.
Quando a Igreja celebra
Não existe uma data única: cada mártir tem a sua festa, e os do Brasil são celebrados em 3 de outubro.
Além disso, toda Missa lembra mártires: os nomes que aparecem na Oração Eucarística, como Inês, Cecília e Lourenço, são de gente morta por causa da fé nos primeiros séculos.
Coisas que pouca gente sabe
Para beatificar um mártir não se exige milagre, porque o próprio martírio já é considerado o sinal. Isso vale para os processos de martírio, não para os outros caminhos.
A frase mais famosa sobre o assunto é do século II e é de Tertuliano: o sangue dos mártires é semente de novos cristãos.
E o número de mártires do século XX e do XXI é maior do que o dos primeiros séculos da Igreja, ao contrário do que a imagem popular do leão no Coliseu sugere.
O que muita gente acredita e não é verdade
Que mártir é quem morre sofrendo. Não é: o que define é morrer por causa da fé, sem negá-la.
Que martírio é coisa de tempo antigo. O catálogo do Vaticano tem 1.640 nomes só deste século, o que faz do martírio um assunto do presente.
Que só católico pode ser reconhecido como mártir na conta da Igreja. A comissão dos novos mártires levantou cristãos de várias denominações, e a Igreja chama isso de ecumenismo do sangue.
Como e quando rezar
Aos santos mártires se reza pedindo coragem: a de manter a fé quando ela custa algo, no trabalho, na família, no lugar onde é mais fácil ficar calado.
Uma forma concreta é escolher um mártir, ler a história dele e rezar por quem hoje é perseguido por causa da fé. Em 14 de setembro, na Exaltação da Santa Cruz, essa oração ganha o sentido que a própria Igreja deu à data em 2025.